segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pronome Possessivo

Um emaranhado colorido de tubos, tobogãs, escorregadores, piscinas de bola, e ela, Júlia, corria solta por dentro. Sua diversão era entrar por um lugar, sair por outro, e me pegar de surpresa. Eu do lado de fora, preocupado, gritava "Júlia, Júlia, menina, cuidado!", "Júlia, olha o batente!", "Vá com calma, Júlia, com calma!". E Júlia saía correndo, serelepe, com um sorriso estampado no rosto. Correu, correu até que esbarrou de frente com uma menina um pouco mais velha. E eu emendei, sem perder tempo:"Júlia, olhe por onde anda!". A menina que havia sofrido a trombada, ainda no chão, muito atenta ao que eu disse, levanta as sobrancelhas, aponta com o indicador, e diz:"Júlia? Júlia é o nome da minha amiga ali, ó!". A Júlia que é personagem principal desta croniqueta, que não é a Júlia a que se referiu a menina atropelada pela alegria, mas a Júlia minha irmã, já estava lá na frente, nem tinha ligado para o esbarrão de há pouco. Quando ouviu o que a garota disse, olhou para trás com olhos desafiadores, e bradou:"Júlia? Júlia é meu, é meu, é meu, é meu, é meu!". Parou, respirou, e continuou, dessa vez se afogando na piscina de bolas:"É meu, é meu, é meu, é meu..."

(Também da Série 'Te Mostro Quando Souber Ler' - Sem Cadernos)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Hiato

Entre uma parada de ônibus e outra, corro, corro para chegar mais rápido, sem atraso. Entre um dia e outro, durmo, durmo para suportar o peso do dia que vem. Entre um trago de cachaça e outro, fumo, fumo para aquecer a garganta. Entre uma crônica e outra, leio, leio para me distrair com os grandes. Entre um gozo e outro, respiro, respiro para aliviar as batidas do coração. Entre uma conversa e outra, me calo, me calo porque o silêncio também é sabedoria. Entre uma dor e outra, sorrio, sorrio porque não só de tristezas se faz a vida. Mas entre uma vez que te vejo e outra, me diz o que eu faço, me diz o que eu faço quando de ti sou apartado!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Voyeur Incomum

Voyeur incomum, estirado no chão, no chão da terra que leva uma exclamação de beleza a cada pronúncia, contemplava a dança das nuvens. Doce e lenta dramaturgia, palco das minhas fantasias. Compasso ritmado de moléculas de água condensada, que quando se precipitarem, virarão chuva, aqui ou lá. Mas, por ora, enquanto não despencam do céu, são minha distração, desenham corpos, desenham caras, desenham cenários. E me levam com elas, para bem longe. De resto, lembro apenas da inveja do mar, que se atirava violentamente contra as pedras. Voltava, se preparava, e de novo. Fazia barulho ensurdecedor. Não se conformava, frente a seu gigantismo e imponência, não ter a minha atenção. Tentava, em vão, dissuadir-me de enxergar a minha amada no espetáculo das nuvens.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma rua de dedos-duros

Eu, quando menino, era obrigado pelos meus pais e pela minha vó a ir à igreja uma vez na semana. Eu deveria escolher uma das quatro missas do fim de semana (07:00 AM e PM dos sábados e domingos), e ir. Caso contrário, castigos, carões, sermões, tapas, o diabo. Geralmente, ia à noite. Era quando tinha a maior concentração de meninos e meninas da minha idade.

Tempo desses, estava sentado num barzinho, nas redondezas da minha casa, tomando uma cerveja. Eu estava só, tomando uma dessas cervejas existenciais. Num dado momento, chega uma menino, com cara de contrariado, e senta na mesa em que eu estou. Pergunto o que tinha lhe deixado emburrado. Ele exclama:

- Esse negócio de igreja já encheu o saco!

Contou-me que estava indo à missa obrigado, que não queria. Mas sua vó o forçava isso. Devia ter uns 12 ou 13 anos, falava meio em tom de desabafo, meio em tom de ira. A igreja era na esquina, havia uma grande movimentação. De onde eu estava sentado eu via a igreja e a esquina oposta. O menino só via entrada da igreja.

Ele advertiu para que se eu visse uma senhora manca, de preto, assim e assado, avisasse. Na certa seria sua vó. No mesmo instante aponta na esquina oposta uma velha que preenchia todas as características passadas pelo garoto. Mando ele ir para o banheiro, e só sair sob uma segunda ordem.

A velha vem, atravessa a rua. Pára, olha, fala com duas ou três pessoas. Atravessa de volta a rua e se dirige ao bar. No bar, se dirige a mim. Trocamos cumprimentos, boa tarde-boa tarde, e ela me pergunta se eu vi um garoto, assim e assado, entrando na igreja. Respondo afirmativamente que sim. Sou mais preciso: "Entrou aí há uns 10 minutos."

A velha faz uma cara de satisfação. Fala que Deus é a salvação do mundo, que nós devíamos temer a ele, que isso, que aquilo. Eu concordava com tudo o que ela dizia. Não realidade, não concordo. Mas no momento concordei porque não se trava prosa razoável sobre religião com uma senhora fanática; e mais: uma discussão naquele momento iria fazer com que ela permanecesse mais tempo no bar; e ela por ali era um perigo para o garotinho.

A senhora vai embora. Mando o menino voltar. Ele fica por ali na mesa, calado, observando sei lá o quê, enquanto eu tomo outra cerveja. Quando já fazia um bom tempo que a missa tinha acabado, adverti que fosse embora, para que sua vó não desconfiasse de nada. Antes ir embora, ele me diz que ouviu trechos da conversa, e me pergunta porque eu tinha feito aquilo. Eu respondi dizendo que esse negócio de igreja realmente já tinha enchido o saco.

Ele levanta, sai e me sorri. Eu sorrio de volta, um sorriso de cúmplice. Depois, sozinho na mesa, me pus a pensar como seria bom ter encontrado uma pessoa que fizesse o mesmo comigo quando eu era moleque. Quando eu era pequeno, minha vó e meus pais sabiam de todos os meus passos na igreja. A minha era uma rua só de delatores. Uma rua de dedos-duros.

terça-feira, 12 de julho de 2011

As Melhores Manchetes

Eu queria exercer o ofício de editor. Não para ganhar dinheiro - não acredito que um editor receba um grande salário. Queria mesmo era realizar uma antiga vontade: fazer uma antologia com as aquelas manchestes que, por si só, já valem mais do que toda a notícia. O título do livro poderia ser o mesmo dessa crônica; e o motivo de escrevê-lo, o frequente fascínio que algumas manchetes inusitadas causam nos leitores.

Não sou editor, não vislumbro assinar um livro. E tendo em vista que todo espaço que me cabe, cabe aqui nessa lapela, compartilho com vocês algumas das tais manchetes.

A primeira, publicada no dia 20/04/2008: "Padre que voava pendurado em balões desaparece". Suspeito que Deus o tenha levado para junto de si.

Esta outra, do dia 26/07/2011, é da série 'Trepadas Mal Sucedidas':"Cão apavora clientes de motel".

No dia 08/07/2011, a humanidade conheceu métodos peculiares de proteção contra zumbis: "Manual contra zumbis é distribuído na Inglaterra". Esta, amigo(a), você tem que guardar para mostrar aos seus(uas) descendentes.

Em 11/06/2006, foi registrado o primeiro assalto de uma múmia:"'Múmia' rouba banco nos Estados Unidos". Habitantes do Egito e adjacências, todo cuidado é pouco.

E se alguém quiser casar com uma vaca? Não são modos, digamos, arrazoados. Mesmo assim, ora veja, que case! Mas estranho mesmo é pedir permissão: "Russo pede ao presidente para casar com vaca".

Esta aqui: "Banhista é surprendida com bezerro que caiu do céu". Me abstenho de qualquer comentário.

Qual o melhor lugar para comprar maconha? Por mais diferentes que sejam as possíveis respostas, não acredito que você tenha feito igual a nossa amiga: "Mulher tenta comprar maconha em delegacia".

E esta: "Homem consegue prever o futuro das pessoas pelas nádegas". Inusitada, não?

Esta aqui é da série "Pega essa promoção!": "Mulher compra videogame e recebe meias sujas".

Mas, tá bom. Chega! Com essa aqui eu me calo:"Defesa de acidentado diz que unicórnio dirigia".

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Se você, caro(a) leitor, chegou até aqui, ajude-nos também nesta singela coleção.

Os links de todas as manchetes citadas na crônica estão logo abaixo nos comentários.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Chamava-se Janecildestelita

Seu pai quis homenagear sua mãe. Não contente isso, quis homenagear suas tias. Até aí, nenhum problema. O problema era querer fazer issso em apenas um único nome. Podia ter feito em três ou quatro, ou, até mesmo, de outras maneiras. Mas tinha que ser em um nome. Janaína, a mãe. Neci, Cilda, Estela e Carmelita, as tias, por ordem decrescente de idade. Dessa mistura, o nome da moça: Janecildestelita.

De tudo isso, o mais impressionante era a capacidade que o pai da menina tinha em fazer contrações de nomes. Realmente impressionante!

Quando eu conheci Janecildestelita eu tinha 13 ou 14 catorzes anos, idade em que estamos ainda verdinhos, não sabemos o que queremos direito. Ela já tinha uma certa fama no interior de Pernambucano. Tocava sanfona e gaita, ao mesmo tempo, com uma habilidade incrível. Porém, o mais extraordinário era uma pessoa só, gozar de uma reputação só, mas com vários nomes.

Explico: aqueles que tinham mais afinidade com a mãe a chamavam de "Jana"; os que gostavam mais da primeira tia a apelidaram de "Necinha"; os partidários da segunda, de "Cildinha". As duas outras tias a chamavam de Jana. E assim ficava, uma pessoa, uma glória, e três nomes.

Lembrei da moça, e de sua inusitada história, porque a pouco tempo, através de notícias trazidas por minha vó, fiquei sabendo que a mulher faleceu. Morreu de pneumonia, coisa rara hoje em dia. Alguns dizem que foi maldição, olho grande, inveja. Mas deixemos isso de lado.

Como ia dizendo, lembrei da moça. Mais do que isso: lembrei de como toda a sua história me impressionava. Eu ficava boquiaberto com um nome tão grande, uma moça tão bonita, depois três nomes repartidos, um furdunço.

Mas como já foi dito, eu a conheci com 14 anos. Nessa idade, a gente ainda não tem "discernimento das coisas", como nas palavras de vovó. Não só isso, eu não sabia, por exemplo, que uma mulher impressionante, arrebatadora, dessas que deixam a gente de queixo caído, pode ter um nome curto, formado por apenas três letras e três sílabas, e se chamar Bárbara.

Apenas isso, bela e simples: Bárbara.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A Crônica

A crônica, coitada, sempre foi tida como a prima pobre da literatura. Coisa boa de verdade era romance, poesia; coisa de escritor mesmo, escritor que se preze. A crônica, que quase sempre vinha nos jornais, e ajudava os escritores a ganhar umas patacas, só veio ser revalorizada com o advento da internet, tudo muito rápido, tá aqui, não tá, eu quero é ler coisa curta!

Tem que aquelas, sabe, que veem fáceis, na leveza do vento. Vamos pensar em escrevê-la, e, quando damos por nós outra vez, pronto, ela já está lá. Uma beleza de lirismo. Tá bom, exagerei. Mas fica bacana mesmo. Fica parecendo uma crônica de cajueiro ou de passarinho, como as de Rubem Braga, um rapaz que gostava de falar sobre essas coisas aparentemente frívolas. Mas digo, fica só parecendo mesmo, assim, bem de longe, e ainda contando uma boa dose de generosidade na crítica.

Outras, vilge maria!, são um aperreio. É tirar a gotinha do leite literário de uma pedra carrancuda. Puxa, rasga, prega, estica: - e o suor pingando da testa. Faz mais um pouquinho, briga com as palvras, e ela, acanhada, toma corpo, bem devagarinho. No final, é aquela coisa chocha, fraca, saco vazio não para em pé, narrativa tacanha, mesquinha.

Tem umas que eram só coisa corriqueira, notícia de jornal, que a gente teima em botar no papel e enhcer de floreios. Outras tantas, é para gente ler no ouvido da amante, como aquelas de Antônio Maria. Algumas vão nascendo com um pé na poesia, mas disse que é crônica, pronto, é crônica. Duvida? Leia "O Amor Acaba" de Paulo Mendes Campos.

Umas são meio meio conto, meio crônica, como 'A Vida Como Ela É..." de Nelson Rodrigues. Com outras a gente já aprende a meter carapuças no sujeito que passa na nossa frente, como as do Padre Lopes Gama. Já outras, como as de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, são de uma genialidade que você custa a crer que elas são de verdade.

Outras tantas, sabe, você tá me entendendo?, são de uma pobreza incrível, sabe, a gente vai escrevendo, uma crônica que fala sobre a crônica, escassez de assunto, ausência de um bom mote, sabe, você me entendeu?