domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Chuva

O dia amanhece chuvoso, uma chuva forte e constante. Tão forte que parecia querer remover alguma mancha arraigada ao chão. Tão constante que parecia querer levá-la para longe, escorrer do solo para o rio, deste para o mar, assim como o lixo da cidade do Recife.

Mas é inútil. A água da chuva leva a si mesma e leva o que não tem força para ficar. Leva a folha da mangueira, a ponta do cigarro, dois sonhos, uma ou outra verdade. Depois que passa a chuva, muitas coisas ficam. Poderão ir na próxima remessa de água que cair do céu, mas ficam.

Eu considerei que a limpeza que a chuva faz nas ruas é igual à seleção de lembraças que o cérebro faz em nossa memória. Algumas coisas, talvez por desuso, se perdem em nossas recordações, são levadas pela água, não voltam jamais.

Eu considerei também que o que aconteceu entre mim e ela era suficientemente forte para ficar, resistir às chuvas. Ela, que nem sabe da existência desse blogue. Nem dessas lamentações em forma de crônica. Mas imaginemos que ela, por um acaso, achasse esse endereço perdido nos confins do ciberespaço.

Talvez sorrisse, se emocionasse, lembrasse dos lindos momentos que passamos juntos.

Talvez não.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Ah!, a universidade, a casa do saber, é sempre assim: dos muros pra cá, cultura; dos muros pra lá, folclore.
Por um mundo com mais comédias eróticas e menos dramalhões românticos.

Por Um Gerundismo Mais Doce

Pois bem, a manifestação que se iniciou com um mero post no 'facebook', agora se estende até este modesto blogue, pra ficar tudo bonitinho, oficializado, carimbado, papel passado, é assim que a gente quer. S'embora!

Queremos sim, estimada leitora, um gerúndio que soe mais gostoso na prosódia nossa de cada dia. O gerúndio suave, palatável, amaciado pela oralidade popular; linguagem coloquial, como queira.

'Gerúndio com 'd'? Nem fudeno!', é frase mãe, o brado de nosso protesto em prol do da língua certa do povo, o povo que fala gostoso o português do Brasil, como nos soprou o mestre Bandeira, quando evocou o Recife. Vê como fica mais fácil e prazeroso: correno, leno, fumano, jogano, trepano, amano, chorano, bebeno, acariciano, brincano... É ou não é?

Chega de picaretagem classe média 'mui culta', pronúncia bonitinha e correta como manda o figurino, como o ordena o chato do Pasquale. É assim que queremos hablar! Apetecendo a vós, querida leitora, até mesmo Rosano, alcunha de batismo deste que vos fala, mudaria de classe de palavra: deixaria de ser um nome próprio para ser, também, um gerúndio. Veja que coisa mais linda!

Adianto que não serão benquistas ressalvas em contrário. Alguém não se agradando, pode marcar hora e local, com cerveja na mesa, claro, que nós colocaremos os pingos 'is', já que a Dona Arrogante Norma Culta, a mesma que põe obstáculos à nossa manifestação, nos impede agora de assentar os tremas nos 'us'.

E ficamos por aqui, porque já vai mui grande esta pobre crônica.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Flagrantes de Mulher 3: Papel de Puta

No recinto, encharcado de ciúme e rancor, o mancebo dizia os maiores impropérios a sua companheira. Dizia, bebia, voltava, novamente a injuriava. Repetia a operação inúmeras vezes. Mas atente: não existe, querida leitora, coisa mais radiante do que uma mulher que não se subjuga, que não deixa sua moral cair, que não baixa a cabeça para homem nenhum. Ela, mui aguerrida, replicava com energia as censuras ultrajantes que lhe eram impostas. O rapagão, com uma petulância insuportável, não parava: bebia e falava, incessantemente. E foi numa dessas, escorregando na arrogância de quem acredita que o mundo gira entorno de seu pênis escroto, que ele caiu na besteira de dizer, aos berros:"És uma puta, nada mais que um puta!" A moçoila, não vacilou, respondeu-lhe, com firmeza:"O meu papel de puta eu fiz. E você, que não me comeu direito?". Sim, concordo, ele podia ter passado sem essa. No local, estupefatos e maravilhados, todos se calaram e contemplaram a pujança daquela mulher. E eu? Eu, depois dessa, também me calo. Encerro aqui esta reles croniqueta, inviável como de costume.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Histórias de Grandeza e de Miséria 4: De Pai para Filho e de Filho para Pai

O Coroa... Não, o Coroa não!, soa muito pejorativo. O Senhor... Não, também não, isso soa muito distante para um homem de quase sessenta anos que há pouco me abraçava como menino. Basta: Jojó. Pois bem, Jojó relembra com orgulho seus tempos de jovem moço, recém-casado, indo ao maior bloco do mundo, o Galo da Madrugada, puxando um filho pela mão e carrgando o outro na 'cacunda', logo atrás do trio elétrico, pois atrás dele, como me sopra o mestre Caetano, só não vai quem já morreu. Um alegria, dizia ele, uma maravilha brincar o carnaval de Recife junto com seus rebentos: "Melhor que sonho!!!", abusa Jojó das exclamações. Acontece, e isso é inevitável, o tempo passa, e a idade, ou as limitações que dela decorrem, se sobrepõe a qualquer um. Jojó ainda ia ao Galo da Madrugada, mas não podia pôr os filhos sobre as costas, pois, é sabido, a sua época de homem robusto passou, agora estava um pouco velho, e os filhos grandinhos demais para serem arrastados sobre os ombros. Mas ele queria porque queria refazer todo o velho caminho, ao menos a Rua da Concórdia completa, mas não sabia se aguentava percorrer todo esse trajeto. O rebento primogênito de Jojó lhe pergunta:"Papai, vamos andar a Rua Concórdia como nos velhos tempos?". Jojó replica:"Minha idade chegou, filho, não sei se consigo." Ao que seu filho replica, na lata, sem titubear:"Vamos, Papai, se o senhor farquejar eu lhe carrego nas costas, como nos velhos tempos." E Jojó não conteve as lágrimas que inundavam seus olhos: chorou o choro da gratidão em plena euforia carnavalesca.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um crônica ranzina, sobre um domingo ranzinza

Foi há poucos dias atrás, num domingo, não lembro, querida leitora, a data ao certo, mas um domingo. O dia começou com alguns acontecimentos não muito bacanas, uma ressaca mais aguda que de a costume, o tempo meio nublado... E se encerrou com uma derrota do meu clube de coração, o Santa Cruz. Veja só!

Fiquei triste, amuado, cabisbaixo, com cara de poucos amigos. Abandonei, ou ela me abandonou, a alegria que comumente me acompanha. Não fiz gracejos com a leve embriaguez de um amigo meu, não ri do escorregão do outro, abdiquei da oportunidade de contar alguma piada. Sisudo até o talo, era capaz de fuzilar alguém só com o olhar. Não sei, exatamente, o que me abateu. De tudo isso, posso chegar a uma única conclusão: até a alegria tira férias.

Fui para casa ainda melancólico. Esperava uma ligação, um torpedo, um e-mail, um sinal de fogo, amigo!, dela. Mas nada veio. E eu fiquei a mascar o gengibre da desesperança. Um dia após, já curado da minha 'doença da chatice', ponderei, e achei até melhor não ter recebido nada dela. Na situação em que eu me encontrava, corria o risco de dar uma dimensão exagerada a uma atitude trivial, me entendes?

Porém, depois de ditas tantas amenidades, poderás vós me perguntar, de que me interessa tua ressaca, a derrota de teu time, tua chatice, a ausência de tua donzela?, que importância tem isso? E eu vos direi muito sinceramente: nenhuma. Eu não sou um daqueles cabras iluminados que tem a faculdade de contar belas histórias, tal qual Ernest Hemingway em O Velho e O Mar, menos ainda de dar-lhes importância. O que faço, e ainda assim muito mal, é contá-las.

Contudo, e aqui também com toda a sinceridade que me é lícita, digo: deixe de ser folgado, acomodado, preguiçoso. Arrumai vós uma importância para esta pobre história. Ou eu haverei de fazer tudo sozinho?

Pois bem, assim ficamos então combinados: eu conto as histórias, vocês lhe atribuem alguma importância.