sexta-feira, 13 de julho de 2012

Hoje ainda é dia de rock

Eu descobri e acho que foi a tempo, mãe e pai, que hoje ainda é dia de rock - começo com essa famosa frase de Sá, Rodrix e Guarabira. Começo para dizer que ainda não passou o prazo de validade, mãe e pai, pra gente poder escutar os três acordes do Ramones, do disco de Titio "Loco Live", que vocês me disseram que era música de doido.    

Eu ainda lembro que vocês queriam que ouvisse aquele álbum chato do Araketu, enquanto eu arrumava o quarto ou descascava o alho do almoço. Era uma barra ter que escutar aquilo, e decorar as letras a contragosto, mas era melhor do que reclamar e tirar o CD da vitrola - caso fizesse isso, a repressão vinha a galope.      

Esperteza mesmo era aguardar uma saída de vocês e chamar a galera pra fazer uma "roda punk", ao som de Devotos do Ódio, no cubículo lá de casa. Numa dessas, o aquário quebrou, aliás, nós (eu e meus amigos) o quebramos, e eu tive que ouvir aquela ladainha repetitiva de que "no meu tempo não era assim". Fiquem com essa vontade de voltar no túnel do tempo que eu coloco "A verdade sobre a nostalgia", de Raul Seixas, na caixola, pra vocês verem o que é bom pra tosse!       

Rulzito, papai, que era baiano, prato cheio para teu bairrismo. Na próxima visita é gelo, uísque e "Novo Aeon" nas alturas, topas? Se topares, veja bem, ainda posso levar de brinde para nossos tímpanos umas músicas de Camisa de Vênus, uma banda soteropolitana, vejas só a ironia. Eu sei que o senhor ainda tem salvação, aleluia!, e eu não vou perder a chance, caso esse nosso encontro aconteça, de levar algumas coisas mais legais, como Pearl Jam, Pink Floyd, The Beatles e Joy Division.    

Contigo, mamãe, o papo é mais complicado, ainda mais depois que aceitaste Jesus, glória, aleluia!, e tudo o que não é "da igreja" é "do mundo". Apesar desse maniqueísmo raso, eu tenho fé, aleluia again!, e ainda guardo na memória os teus pulos ao som de Chico Science – o que já é um bom começo, admita-se. Caetano Veloso também te agradava, e, nesse caso, poderíamos deixar de lado o álbum "A Bossa de Caetano" para ouvir o "Transa", que achas? E como eu sou um filho bonzinho, no final, no apagar das luzes, já próximo do “The End” caligráfico e bonito dos filmes de Roliúde, eu coloco o folk 
do álbum “Blue” de Joni Mitchell pra embalar nossos melhores sonhos acordados. Massa, né não?           


Pensem, mas pensem com carinho, pois a oportnidade de descobrir que hoje ainda é dia de rock bate à porta de vocês. E não é o Rocky invencível de Stalone ou o Roque assistente de palco de Silvio Santos, corta essa piada batida, papai.  


Abraços.

domingo, 11 de dezembro de 2011

vácuo sonoro

De dentro do carro, não se percebeu o que havia acontecido, só atinamos para o trânsito depois da brusca freada, do estridente barulho da buzina, e do sonoro "Poooorra!" emitido pelo condutor do automóvel, meu pai. Júlia, minha irmã, olhou assustada. Passou-se. Algumas semanas depois, uma situação semelhante: buzina e freada agressivas. Júlia percebeu algo incompleto - quase um vácuo sonoro. Esperou reações, elas não vieram. Então, encheu o pulmão de ar e soltou: "Poooorra!". Olhamos impressionados e rimos contidamente para não dar a entender que aquilo era certo. A mãe censura suavemente, quase satisfeita: Júlia, minha filha, isso está errado. Tá certo, mamãe, desculpa.



(Também da série Te mostro quando souber ler)

domingo, 4 de dezembro de 2011

momentos mudos

Eu te amo quando, tranquila, dormes, sem imaginar que eu vigio teu sono. Eu te amo na esquina de casa - com um sorriso leve no rosto - ao fumar o cigarro de tua marca predileta. Eu te amo na viagem de ônibus, indo, sem avisar, ao teu encontro. Eu te amo no bar em que nos conhecemos, ao tomar sozinho uma cerveja aguada. Eu te amo pela manhã, debaixo das cobertas, num sono fingido, contemplando você se arrumar. Eu te amo assistindo àquele filme. Eu te amo ao deixar cair uma lágrima, na fila do banco, porque tocou nossa música em inoportuna hora. Eu te amo arrumando a cama que ficará à espera de nós dois. Eu te amo na carta que nunca te entreguei. Eu te amo nas pequenas descobertas do mundo - a vaidade e o orgulho - de Clarice Lispector. Eu te amo longe do mar. Eu te amo no pôr do sol solitário que não dividi contigo. Eu te amo nas noites que não durmo ao teu lado. Eu te amo ao cheirar tua roupa usada. Eu te amo no silêncio da sala. Eu te amo calado, contido - em momentos mudos, mas que falam de você.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Se você imagina que ao invés de estar sentado na frente do computador, ensejando uma cena seca, sem cor, sentindo uma sensação de desperdício de tempo e vida, você poderia estar andando por aí, perambulando por um mundo imenso, talvez um momento de distração seja possível. Poder-se-ia estar agora na mesa de um bar, conversando com algum amigo, ou sozinho mesmo, se divertindo ao ver outras pessoas embriagadas; a essa hora, também, seria interessante observar o movimento das águas do rio que, ajudadas pelas águas fortes da chuva, fazem belo espetáculo. Eu poderia, quem sabe, andar até achar um pinheiro, ou um cajueiro, ou um coqueiro, ou qualquer árvore, e parar e olhar para ela, e a partir dela refletir sobre minha vida, reflexões sinceras se possível; e depois contar essas reflexões a alguns amigos íntimos, que são generosos e emprestam seu valioso tempo para ouvir minhas divagações, e depois me envaidecer um pouco com seus elogios a minha rara sensibilidade. Ou, então, ia me dedicar a lamber, e dedilhar, e penetrar, a linda bocetinha da minha amada, que eu conheço tão bem como quem conhece as próprias feridas, e faria ela gozar em urros de prazer, e depois, quase no mesmo instante, eu gozaria também, para o momento ser completo. Mas isso, nada disso, existe. Aliás, existe. Mas é - não direi apenas - fantasia. De real só a mesa, a cadeira e o computador. Que persistem. E, nossa, quanta persistência!

sábado, 29 de outubro de 2011

O ser humano é uma invenção que deu errado, muito errado. E ponto final.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

sejamos sãos

não fosse aquele par de chinelos tão desgastados quanto a palavra amor, eu não teria andado tanto tempo com os pés desnudos, expostos a pregos, cacos de vidro, pedras e toda sorte de obstáculos que um longo caminho, o caminho da vida, nos impõe; e tu, está claro, não estaria agora com minhas pernas sob teu colo a limpar um mar de feridas, feridas que não causaste e que por isso mesmo não são tuas. com tanto esmero, lograrás êxito, acredito eu, na cura delas. mas não te deixes levar pela conversa leviana que insiste em dizer que terás tu que fazer-me outro agravo na pele para que eu volte a ti, e mais outro, e depois outro, e outro, e outro, e outro, dando vinda longa, assim, a nosso trato. o que se percebe comumente são pessoas doentes que vivem agredir-se mutuamente sabe-se lá o porquê. mas façamos de nós o que está fora do comum, sejamos sãos: dás saúde aos meus ferimentos, e eu saberei ser-te grato por isso.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Pronome Possessivo

Um emaranhado colorido de tubos, tobogãs, escorregadores, piscinas de bola, e ela, Júlia, corria solta por dentro. Sua diversão era entrar por um lugar, sair por outro, e me pegar de surpresa. Eu do lado de fora, preocupado, gritava "Júlia, Júlia, menina, cuidado!", "Júlia, olha o batente!", "Vá com calma, Júlia, com calma!". E Júlia saía correndo, serelepe, com um sorriso estampado no rosto. Correu, correu até que esbarrou de frente com uma menina um pouco mais velha. E eu emendei, sem perder tempo:"Júlia, olhe por onde anda!". A menina que havia sofrido a trombada, ainda no chão, muito atenta ao que eu disse, levanta as sobrancelhas, aponta com o indicador, e diz:"Júlia? Júlia é o nome da minha amiga ali, ó!". A Júlia que é personagem principal desta croniqueta, que não é a Júlia a que se referiu a menina atropelada pela alegria, mas a Júlia minha irmã, já estava lá na frente, nem tinha ligado para o esbarrão de há pouco. Quando ouviu o que a garota disse, olhou para trás com olhos desafiadores, e bradou:"Júlia? Júlia é meu, é meu, é meu, é meu, é meu!". Parou, respirou, e continuou, dessa vez se afogando na piscina de bolas:"É meu, é meu, é meu, é meu..."

(Também da Série 'Te Mostro Quando Souber Ler' - Sem Cadernos)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Hiato

Entre uma parada de ônibus e outra, corro, corro para chegar mais rápido, sem atraso. Entre um dia e outro, durmo, durmo para suportar o peso do dia que vem. Entre um trago de cachaça e outro, fumo, fumo para aquecer a garganta. Entre uma crônica e outra, leio, leio para me distrair com os grandes. Entre um gozo e outro, respiro, respiro para aliviar as batidas do coração. Entre uma conversa e outra, me calo, me calo porque o silêncio também é sabedoria. Entre uma dor e outra, sorrio, sorrio porque não só de tristezas se faz a vida. Mas entre uma vez que te vejo e outra, me diz o que eu faço, me diz o que eu faço quando de ti sou apartado!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Voyeur Incomum

Voyeur incomum, estirado no chão, no chão da terra que leva uma exclamação de beleza a cada pronúncia, contemplava a dança das nuvens. Doce e lenta dramaturgia, palco das minhas fantasias. Compasso ritmado de moléculas de água condensada, que quando se precipitarem, virarão chuva, aqui ou lá. Mas, por ora, enquanto não despencam do céu, são minha distração, desenham corpos, desenham caras, desenham cenários. E me levam com elas, para bem longe. De resto, lembro apenas da inveja do mar, que se atirava violentamente contra as pedras. Voltava, se preparava, e de novo. Fazia barulho ensurdecedor. Não se conformava, frente a seu gigantismo e imponência, não ter a minha atenção. Tentava, em vão, dissuadir-me de enxergar a minha amada no espetáculo das nuvens.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Uma rua de dedos-duros

Eu, quando menino, era obrigado pelos meus pais e pela minha vó a ir à igreja uma vez na semana. Eu deveria escolher uma das quatro missas do fim de semana (07:00 AM e PM dos sábados e domingos), e ir. Caso contrário, castigos, carões, sermões, tapas, o diabo. Geralmente, ia à noite. Era quando tinha a maior concentração de meninos e meninas da minha idade.

Tempo desses, estava sentado num barzinho, nas redondezas da minha casa, tomando uma cerveja. Eu estava só, tomando uma dessas cervejas existenciais. Num dado momento, chega uma menino, com cara de contrariado, e senta na mesa em que eu estou. Pergunto o que tinha lhe deixado emburrado. Ele exclama:

- Esse negócio de igreja já encheu o saco!

Contou-me que estava indo à missa obrigado, que não queria. Mas sua vó o forçava isso. Devia ter uns 12 ou 13 anos, falava meio em tom de desabafo, meio em tom de ira. A igreja era na esquina, havia uma grande movimentação. De onde eu estava sentado eu via a igreja e a esquina oposta. O menino só via entrada da igreja.

Ele advertiu para que se eu visse uma senhora manca, de preto, assim e assado, avisasse. Na certa seria sua vó. No mesmo instante aponta na esquina oposta uma velha que preenchia todas as características passadas pelo garoto. Mando ele ir para o banheiro, e só sair sob uma segunda ordem.

A velha vem, atravessa a rua. Pára, olha, fala com duas ou três pessoas. Atravessa de volta a rua e se dirige ao bar. No bar, se dirige a mim. Trocamos cumprimentos, boa tarde-boa tarde, e ela me pergunta se eu vi um garoto, assim e assado, entrando na igreja. Respondo afirmativamente que sim. Sou mais preciso: "Entrou aí há uns 10 minutos."

A velha faz uma cara de satisfação. Fala que Deus é a salvação do mundo, que nós devíamos temer a ele, que isso, que aquilo. Eu concordava com tudo o que ela dizia. Não realidade, não concordo. Mas no momento concordei porque não se trava prosa razoável sobre religião com uma senhora fanática; e mais: uma discussão naquele momento iria fazer com que ela permanecesse mais tempo no bar; e ela por ali era um perigo para o garotinho.

A senhora vai embora. Mando o menino voltar. Ele fica por ali na mesa, calado, observando sei lá o quê, enquanto eu tomo outra cerveja. Quando já fazia um bom tempo que a missa tinha acabado, adverti que fosse embora, para que sua vó não desconfiasse de nada. Antes ir embora, ele me diz que ouviu trechos da conversa, e me pergunta porque eu tinha feito aquilo. Eu respondi dizendo que esse negócio de igreja realmente já tinha enchido o saco.

Ele levanta, sai e me sorri. Eu sorrio de volta, um sorriso de cúmplice. Depois, sozinho na mesa, me pus a pensar como seria bom ter encontrado uma pessoa que fizesse o mesmo comigo quando eu era moleque. Quando eu era pequeno, minha vó e meus pais sabiam de todos os meus passos na igreja. A minha era uma rua só de delatores. Uma rua de dedos-duros.

terça-feira, 12 de julho de 2011

As Melhores Manchetes

Eu queria exercer o ofício de editor. Não para ganhar dinheiro - não acredito que um editor receba um grande salário. Queria mesmo era realizar uma antiga vontade: fazer uma antologia com as aquelas manchestes que, por si só, já valem mais do que toda a notícia. O título do livro poderia ser o mesmo dessa crônica; e o motivo de escrevê-lo, o frequente fascínio que algumas manchetes inusitadas causam nos leitores.

Não sou editor, não vislumbro assinar um livro. E tendo em vista que todo espaço que me cabe, cabe aqui nessa lapela, compartilho com vocês algumas das tais manchetes.

A primeira, publicada no dia 20/04/2008: "Padre que voava pendurado em balões desaparece". Suspeito que Deus o tenha levado para junto de si.

Esta outra, do dia 26/07/2011, é da série 'Trepadas Mal Sucedidas':"Cão apavora clientes de motel".

No dia 08/07/2011, a humanidade conheceu métodos peculiares de proteção contra zumbis: "Manual contra zumbis é distribuído na Inglaterra". Esta, amigo(a), você tem que guardar para mostrar aos seus(uas) descendentes.

Em 11/06/2006, foi registrado o primeiro assalto de uma múmia:"'Múmia' rouba banco nos Estados Unidos". Habitantes do Egito e adjacências, todo cuidado é pouco.

E se alguém quiser casar com uma vaca? Não são modos, digamos, arrazoados. Mesmo assim, ora veja, que case! Mas estranho mesmo é pedir permissão: "Russo pede ao presidente para casar com vaca".

Esta aqui: "Banhista é surprendida com bezerro que caiu do céu". Me abstenho de qualquer comentário.

Qual o melhor lugar para comprar maconha? Por mais diferentes que sejam as possíveis respostas, não acredito que você tenha feito igual a nossa amiga: "Mulher tenta comprar maconha em delegacia".

E esta: "Homem consegue prever o futuro das pessoas pelas nádegas". Inusitada, não?

Esta aqui é da série "Pega essa promoção!": "Mulher compra videogame e recebe meias sujas".

Mas, tá bom. Chega! Com essa aqui eu me calo:"Defesa de acidentado diz que unicórnio dirigia".

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Se você, caro(a) leitor, chegou até aqui, ajude-nos também nesta singela coleção.

Os links de todas as manchetes citadas na crônica estão logo abaixo nos comentários.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Chamava-se Janecildestelita

Seu pai quis homenagear sua mãe. Não contente isso, quis homenagear suas tias. Até aí, nenhum problema. O problema era querer fazer issso em apenas um único nome. Podia ter feito em três ou quatro, ou, até mesmo, de outras maneiras. Mas tinha que ser em um nome. Janaína, a mãe. Neci, Cilda, Estela e Carmelita, as tias, por ordem decrescente de idade. Dessa mistura, o nome da moça: Janecildestelita.

De tudo isso, o mais impressionante era a capacidade que o pai da menina tinha em fazer contrações de nomes. Realmente impressionante!

Quando eu conheci Janecildestelita eu tinha 13 ou 14 catorzes anos, idade em que estamos ainda verdinhos, não sabemos o que queremos direito. Ela já tinha uma certa fama no interior de Pernambucano. Tocava sanfona e gaita, ao mesmo tempo, com uma habilidade incrível. Porém, o mais extraordinário era uma pessoa só, gozar de uma reputação só, mas com vários nomes.

Explico: aqueles que tinham mais afinidade com a mãe a chamavam de "Jana"; os que gostavam mais da primeira tia a apelidaram de "Necinha"; os partidários da segunda, de "Cildinha". As duas outras tias a chamavam de Jana. E assim ficava, uma pessoa, uma glória, e três nomes.

Lembrei da moça, e de sua inusitada história, porque a pouco tempo, através de notícias trazidas por minha vó, fiquei sabendo que a mulher faleceu. Morreu de pneumonia, coisa rara hoje em dia. Alguns dizem que foi maldição, olho grande, inveja. Mas deixemos isso de lado.

Como ia dizendo, lembrei da moça. Mais do que isso: lembrei de como toda a sua história me impressionava. Eu ficava boquiaberto com um nome tão grande, uma moça tão bonita, depois três nomes repartidos, um furdunço.

Mas como já foi dito, eu a conheci com 14 anos. Nessa idade, a gente ainda não tem "discernimento das coisas", como nas palavras de vovó. Não só isso, eu não sabia, por exemplo, que uma mulher impressionante, arrebatadora, dessas que deixam a gente de queixo caído, pode ter um nome curto, formado por apenas três letras e três sílabas, e se chamar Bárbara.

Apenas isso, bela e simples: Bárbara.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A Crônica

A crônica, coitada, sempre foi tida como a prima pobre da literatura. Coisa boa de verdade era romance, poesia; coisa de escritor mesmo, escritor que se preze. A crônica, que quase sempre vinha nos jornais, e ajudava os escritores a ganhar umas patacas, só veio ser revalorizada com o advento da internet, tudo muito rápido, tá aqui, não tá, eu quero é ler coisa curta!

Tem que aquelas, sabe, que veem fáceis, na leveza do vento. Vamos pensar em escrevê-la, e, quando damos por nós outra vez, pronto, ela já está lá. Uma beleza de lirismo. Tá bom, exagerei. Mas fica bacana mesmo. Fica parecendo uma crônica de cajueiro ou de passarinho, como as de Rubem Braga, um rapaz que gostava de falar sobre essas coisas aparentemente frívolas. Mas digo, fica só parecendo mesmo, assim, bem de longe, e ainda contando uma boa dose de generosidade na crítica.

Outras, vilge maria!, são um aperreio. É tirar a gotinha do leite literário de uma pedra carrancuda. Puxa, rasga, prega, estica: - e o suor pingando da testa. Faz mais um pouquinho, briga com as palvras, e ela, acanhada, toma corpo, bem devagarinho. No final, é aquela coisa chocha, fraca, saco vazio não para em pé, narrativa tacanha, mesquinha.

Tem umas que eram só coisa corriqueira, notícia de jornal, que a gente teima em botar no papel e enhcer de floreios. Outras tantas, é para gente ler no ouvido da amante, como aquelas de Antônio Maria. Algumas vão nascendo com um pé na poesia, mas disse que é crônica, pronto, é crônica. Duvida? Leia "O Amor Acaba" de Paulo Mendes Campos.

Umas são meio meio conto, meio crônica, como 'A Vida Como Ela É..." de Nelson Rodrigues. Com outras a gente já aprende a meter carapuças no sujeito que passa na nossa frente, como as do Padre Lopes Gama. Já outras, como as de Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, são de uma genialidade que você custa a crer que elas são de verdade.

Outras tantas, sabe, você tá me entendendo?, são de uma pobreza incrível, sabe, a gente vai escrevendo, uma crônica que fala sobre a crônica, escassez de assunto, ausência de um bom mote, sabe, você me entendeu?

domingo, 5 de junho de 2011

Filme Roliudiano

Os filmes de Roliúde sempre despertaram meu interesse. E o que mais chamava a minha atenção era a facilidade. Na tela prateada da ilusão, tudo era muito fácil, demasiado simples, transcorria sem aperreios. Se você, na mão, tinha uma palito de fósforo, mas não tinha uma caixinha para riscá-lo, isso não era problema. Ele podia ser acendido na parede, e na ausência de uma por perto, a sola do sapato servia perfeitamente.
No bar, restaurante ou coisa de mesmo gênero, ninguém pedia, como os meros mortais, a conta, por favor, garçom! Bastava deixar o dinheiro na mesa ou no balcão, levantar e sair, sem se preocupar com o troco. O dinheiro, por sua vez, já constituia uma imensa facilidade. Bastava por a mão no bolso, e lá estavam as notas do dólar norte-americano, verdes, vibrantes. Era do bolso, também, que brotava o cigarro, sempre avulso, que o ator principal fumava. Fumar, no caso, dar dois tragos, lembrar-se de um problema colossal, largar o cigarro no chão, e partir.
Se havia algum grande esforço, ele era só aparente, a título de dramatização. Tudo corria leve, frouxo.
Ontem, havia um palco. Nele, uma banda que tocava invarialmente forró. Ao redor do palco, pessoas, muitas pessoas, barracas que vendiam comidas juninas, cerveja, refrigerante. A certa altura da festa, ouvem-se dois tiros. Uma pessoa havia sido assassinada. A banda para de tocar o forró, as pessoas param de dançar. Todos procuram, com os olhos, o local onde havia ocorrido o fato. Logo, no meio da multidão, passam dois homens, um carregando o outro, o outro, provavelmente, já morto. As pessoas se esticam, olham. O homem que carregava o outro homem some na multidão. A banda volta a tocar o forró, as pessoas voltam a dançar. Tudo muito fácil, muito simples. Ninguém perplexo. As pessoas comem, bebem, dançam.
Do morto, no local, só a mancha de sangue no chão. Mas ninguém mais se preocupava com isso. Isso, aliás, parecia que nem tinha ocorrido, de tão afiada que era a habilidade de não se deixar abalar por um homicídio.
E eu, sufocado pela alegria leviana,cheguei à conclusão óbvia: - a banalização da violência tem um 'quê' de fime roliudiano.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Para Viver Mais

- O cigarro mata, mata mesmo.

- E só viesse descobrir isso agora?, depois de seis anos fumando?

- Não, claro que não!, mas é que só hoje a ficha caiu...

- E vais parar mesmo?

- Vou! - Joga a bituca do cigarro pela janela do carro.

- Estou gostando de ver.

- Você vai gostar de ver quando eu tiver com 90 anos de idade, vou viver muito. Parei de fumar para viver mais.

Para aumentar a expectativa de vida, largou o tabaco. Quatro anos depois, toma um susto. Na final do campeonato, seu time leva um gol, de bicicleta, no finalzinho do segundo tempo, perdendo a partida e o título. A emoção foi grande, ele nao resistiu. Caiu no chão com a mão no peito, e pensou: - como seria bom um último cigarro antes de partir.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Balada de Glorfindon

Olá pessoal estou aqui para deixar mais uma poesia para vocês espero que gostem e não deixem de comentar!

Não tem muito haver com o poema, mas é uma imagem legal


Balada de Glorfindon


Nos verdes campos de Atergion
Morava um elfo ferreiro
de nome Glorfindon
de joias um poderoso refinador.

Em um outono belo.
Por Leowyn se apaixonou.
Seu coração imortal palpitou.
E a ela seu amor entregou.

Para provar sua devoção
em terras de escuridão
Buscou um minério raro.
Azul e belo como o horizonte.

Então no fogo ardente
e no tinir do martelo pulsante
Lapidou e formou belamente
Um anel que como estrela brilhava a noite.

Em cortejo pediu à Leowyn sua mão.
E ela com um sorriso retribuiu a paixão
E na primavera posterior.
Eles se uniram formando um só.

Mas triste é o desfecho dessa canção.
Pois uma batalha ameaçou essa paixão.
Mostrando que nem os elfos podem escapar.
Das lamurias que assolam as almas.

Em uma noite de grande lua.
A carruagem elfica se dirigia para Areliária.
Mas sua viajem foi interropida
Por um assalto que culminou em batalha.

Leowyn com o barulho chorava.
Enquanto Glorfindon a espada empunhava.
Orcs ateavam chamas e atacavam com massas.
No furor de uma batalha dramática.

Até o amanhecer perdurou o combate.
Elfos e orcs encontraram a morte.
No chão havia dor e sangue.
Mas a tristeza ainda seria mais forte.

Pois ao chegar em sua carruagem
Glorfindon chorou.
Ao ver o corpo da elfa que um dia amou.
Sabor amargo em seus labios provou.

E nem a lembrança de sua paixão.
Ficou em suas mãos.
Pois o anel de Leowyn na batalha foi perdido.
Levado por orcs ou furtado pelo destino.

E desse tempo até seu fim.
Chorou nas terras elficas de Aurim
Siliencioso e tão amargo.
Glorfindon o ferreiro solitário.

sábado, 21 de maio de 2011

Um Lugar para Chamar de Seu

E enquanto morar debaixo desse teto, tá me ouvindo, me deve satisfação. É a frase que muitos filhos devem ter ouvido de seus pais, descontado o tom mais ou menos agressivo e autoritário, que vai variar de pai para pai, e de filho para filho também, afinal estamos longe de sermos bons exemplos, justiça seja feita.

Nem sempre a saída é compulsória, ânimos que se agitam, estopim que resulta com um dos lados (quase sempre o do filho) de mala feita, a caminho sabe-se lá de onde. Às vezes, e é bom que seja assim, é só mais um cilco da vida que se encerra, e outro que se inicia. As lágrimas que despencam dos olhos tristes são de uma saudade antecipada, temperadas apenas com uma dose de possessividade das mães para com suas crias.

E nós sabemos que a autonomia e a liberdade são duas moças muito aprazíveis, mas a acompanha uma senhora um tanto exigente chamada responsabilidade. Porque vai chegar a hora que irão tocar a sua campanhia pedindo para falar com o(a) dono(a) da casa, e você vai ter que dizer:"Sou eu!".

Mas isso a gente aprende, nem que seja através de martelada. Por que a vida, viu, é assim: enquanto a gente não morre, a gente aprende.

Ponderações (necessárias) à parte, você há de convir o quão bonito é um filho que se emancipa, que, como diziam nossas mães, com licença Dona Betânia, tornam-se donos(as) dos seus narizes.

Eu na casa de um amigo, pego um cigarro e vou me dirigindo lentamente até a porta, quando sou interrompido:

- Pode ficar aí, camarada, a casa é minha.

Foi uma das coisas mais belas que já ouvi.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

As Comportas Se Abriu, Laiá lalaiá

Foi há quase uma semana, precisamente na quinta-feira, quinto dia do mês corrente. Eu estava, como de praxe, na sala 173 da Reitoria, vendendo minha força de trabalho por um auxílio miserável, apenas para me manter na UFPE.

Era fim de expediente, eu já me dava como 'largado', e estava no computador, gerenciando as minhas mil redes sociais. No facebook, vejo o aviso no mural de vários amigos: "A UFPE cancela as aulas da noite" ou "Não haverá aulas na UFPE hoje", ou qualquer coisa que o valha.

Até então, não sabia dos motivos, mas desconfiava que fosse por causa da chuva. Achei muito estranho, pois aquele era o dia que menos tinha chovido naquela semana. Mas tudo bem, quero nem saber, vou embora para casa, foi o que eu pensei.

Chego na parada, acendo um cigarro, compro uma 'jujuba', mas o ônibus demora. Rapidamente, começo a ouvir os comentários:"Vai dar cheia e esse ônibus não chega!".

Como o ônibus insistisse em não chegar, resolvi ir até o meu querido prédio, o CFCH.

No caminho, pessoas correndo, aflitas, carros saindo às pressas. Apenas para me certificar, pergunto a uma moça que passava correndo, de longe:"Vai ter aula hoje?", ela responde:"Foi cancelaaado, vem água aí!".

Continuo andando, perto do CAC, um gringo em pânico me diz com um português arrastado:"As comportas se abriu!". Eu me finjo de espantado:"Com'é que é?", ele responde, já distante:"Tapacurá! Tapacurá!".

Pronto, já sabia o que estava acontecendo. Uma reedição do que ocorreu em 1975, época em que eu não era nem nascido, quando se espalhou por toda a cidade o boato de que a barragem de Tapacurá tinha se rompido. Dessa vez, versão 2011, eras as comportas que tinham sido abertas. As comportas da barragem de Tapacurá que, pasmem, nem comportas tem.

No DA de Ciências Sociais um informativo criativo:"Leilão do DACS cancelado por motivos aquáticos". Ri à beça, enquanto resolvia com Frances, Bruna e Berlano para qual bar iríamos. Nesse momento, Kleiber já nem podia subir no prédio "por determinação do reitor".

Minha mãe me liga e tasca a frase clássica, ouvida por tanta gente naquele dia:"Meu filho, você tá aonde?". Disse onde estava, que iria demorar um pouco para chegar, mas que tudo estava tranquilo, que ela nem precisava esquentar a cabeça. Mas ela continuou aflita, nervosa, falando dez palavras por segundo, aí eu tive que usar a tática do 'Relaxa, mãe'. Repeti "Relaxa, mãe" umas cem vezes, até ela desligar o telefone na minha cara.

Vou para o bar, bebo uma cerveja não muito boa, mas que quebra o galho, jogo dominó, ganho várias partidas com minha companheira Frances, mas levo duas buchudas de Kleiber. Tô engasgado até agora. Ruivo, se ligue, tem volta.

No final da noite, volto para casa chateado por não ter dinheiro para ir ver Odair José e Reginaldo Rossi no Festival da Seresta, mas tranquilo, espalhado num ônibus vazio, contente por não ter pego engarrafamento, parodiando Chico Buarque:

"Hoje as comportas se abriu, laiá lalalaiá"

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Como uma Pétala

Como uma Pétala

Procure pelas pétalas douradas do girassol
Voando nas costas do vento elas vão
Até lugares longínquos
Onde a vida é um sorriso

Eu queria viver a sua ilusão
Rasgar a mortalha do tempo
Nunca crescer, para sempre jovem ser
Longe da falta que o coração inunda

Se eu pudesse seguir a primavera
Se eu pudesse ser uma pétala
Eu encontraria Deus e o abraçaria
Uma paixão bela eu também provaria

Escrevendo ilusões para ninguém
Talvez um dia as poesias sejam ouvidas
E os anseios do garoto que elas velam
A beleza de um sentimento sincero

Enquanto isso as pétalas dançam...
Em nome do tempo que já foi e nunca esteve
Em nome de um coração amante
Em nome do poeta triste

Seu eu pudesse ser como luz
E voar entre tempos e dimensões
Seu eu pudesse ser uma pétala
Ao mundo mágico carregado seria.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Três Pães de Queijo

Quando eu cursava a 7ª série do Ensino Fundamental, ali por volta dos 12 ou 13 anos de idade, meu grande sonho era comer três pães de queijo na hora do recreio. Sonho pequeno, eu sei. Mas quase todos os meus colegas, de séries anteriores e posteriores, podiam comer três pães de queijo na hora do intervalo. Se não o faziam, era simplesmente porque não queriam. Eu não fazia. Não fazia porque não podia.

Em dia bom, papai e mamãe folgados financeiramente falando, eu comia um. Apenas um pão de queijo. O que, saliente-se, era muito triste! Eu não sabia o que era pior, não subir naquele banco redondo da lanchonete, que era o que corriqueiramente acontecia, pois eu estava sempre sem grana para os ditos três pães, ou subir e descer rapidamente, comendo apenas um, não gozando plenamente da minha glória. Coito interrompido, ora pois.

Alimentei esse meu 'complexo de vira-latas' por um bom tempo.

Alguns anos depois, quando eu já havia deixado a escola, resolvi que era o momento de matar meu desejo de uma vez por todas. Suei mais do que o marcador de Messi, se a paráfrase atualizada com o grande Sérgio Porto é válida, para conseguir separar um trocado para o três pães de queijo. Ganhava uma merreca como estagiário, vivia com a corda no pescoço.

Mas me organizei, guardei o dinheiro e fui lá. Cheguei seguro de mim, confiante na vitória, me espalhei no banco, sorriso que alcançava as duas orelhas, enchi a boca e disse:

- Três pães de queijo, e uma coca para acompanhar. Por favor.
- A gente não vende isso mais não! Esse pão seboso e remoso não tava dando mais lucro!

A respota da dona da lanchonete abalou meu coração. Com toda certeza, eu seria uma pessoa mais feliz se tivesse comido os três pães de queijo.